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PAULINHO ALBUQUERQUE
Ex-diretor da gravadora Velas, produtor de grandes discos, iluminador,
curador do Free-Jazz, diretor de espetáculos. Este é
o perfil profissional de Paulo Albuquerque, botafoguense, reservista
da classe de 42. Mas as inúmeras fotos que decoram as paredes
de seu simpático apê no Jardim Botânico falam
de outro Paulo. Do amigo de fé. De gente do samba e de gente
do pop. De grandes nomes do jazz e de biriteiros anônimos
da velha praia do Pinto – cujas biroscas aprendeu a freqüentar
com seu pai, o saudoso jornalista Paulo Medeiros. É um pouco
da carreira e do pensamento dessa grande figura que vamos conhecer
agora, nessa entrevista exclusiva para o novo DJ.
DJ – Diz aí, Paulinho: desde quando
você produz discos e quais os principais que você produziu?
PA – Minha experiência com produção
de discos é relativamente recente, apesar de ter produzido
um compacto duplo (lembra?) com a Cybele (Quarteto em Cy) lá
pelo início dos anos 70. Mas comecei trabalhando como assistente
de produção dos discos do Djavan, com quem fiz roteiros,
iluminação e direção de shows por quase
dez anos.
Assim, assinei a assistência de produção dos
discos "Seduzir"(81), Luz (82) e "Meu lado"
(86). Aprendi muito com Djavan e o considero o maior intérprete
brasileiro. EM 1983, comecei a produzir mesmo e posso citar, de
cara, o disco "Negro Mesmo", com Nei Lopes, desse ano.
Depois foram vários, entre eles "Sétima Arte",
com Fátima Guedes: Preto com Buraco no Meio" e "Pra
comer alguém", do grupo Casseta & Planeta; dois
discos da Rosa Passos ("Festa e Pano pra Manga"); outros
discos de Fátima Guedes ("Pra bom entendedor" e
"Grande Tempo"); dois discos do Guinga ("Simples
e Absurdo" e "Cheio de Dedos"), este último
detentor do prêmio Sharp de melhor disco instrumental) e ,
também, o disco do Ivan Lins "Viva Noel", um conjunto
de três Cds com 42 músicas do nosso querido Noel Rosa,
com participações especialíssimas, entre elas,
Caetano Veloso, Chico Buarque, Leila Pinheiro, Zeca Pagodinho, Fundo
de Quintal, Nana Caymmi e muitos outros.
DJ – Como você tem feito para driblar
as imposições do marketing das gravadoras?
PA – Bem, em primeiro lugar, acho que "marketing"
em gravadoras é uma coisa que não pegou no Brasil.
Eu me lembro de uma palestra sobre música e indústria
fonográfica, em que um executivo dessa indústria declarou
que foi diretor durante 12 (!) anos numa grande gravadora no Rio
de Janeiro e jamais viu nesse período uma única pesquisa
de mercado, providência elementar de qualquer indústria.
Aliás, pra que Marketing? No caso da música estrangeira,
ela já vem com matriz prontinha e a divulgação
feita. E há o chamado jabá que ninguém discute
mais. Eu tenho tido sorte de não precisar driblar ninguém
porque a maioria de minhas produções foi feita para
a Velas, uma gravadora pequena, cuja proposta era exatamente a mesma
que eu tinha, a ponto de eu mesmo ter sido sócio dessa empresa
durante algum tempo. Aliás, acho que, a exemplo de outros
países, como os Estados Unidos, a salvação
da música está nas gravadoras pequenas. Gravadora
grande não arrisca. E isso não é um fenômeno
brasileiro. Lembremos, por exemplo, que a Motown era uma gravadora
pequena nos Estados Unidos. O mesmo ocorria com a Stax. Duvido muito
que uma gravadora grande tivesse peito de lançar Otis Redding,
Diana Ross, Marvin Gaye, etc. O que eles fazem? Esperam a pequena
assumir o risco e se der certo eles vão lá e... cráu.
Cooptam. Portanto, acho que a saída para a música
e também para a própria indústria é
o arrojo destes selos e gravadoras pequenas, porque eles são
OBRIGADOS a arriscar. Se concorrerem com as grandes com a mesma
filosofia delas, morrem no nascedouro.
DJ – Como você vê a ascensão,
a partir do final dos anos 70, de músicos do chamado iê-iê-iê
ao primeiro escalão de produção de boa parte
das gravadoras com sede no Rio?
PA – Em primeiro lugar, é bom lembrar
que o iê-iê-iê foi um dos mais indigentes movimentos
musicais na história do mundo. Enquanto aquilo era feito
de forma despretensiosa, podia-se até achar gozado, mas a
medida que se foi dando uma importância que esse movimento
nunca teve, a coisa ficou séria. Acho absurdo um músico
egresso desse movimento dar qualquer tipo de opinião sobre
a obra de Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan, Cartola, Martinho
da Vila e outros. Acho que eles são colocados nesses postos
de direção por serem, talvez, mais manipuláveis
pelo big boss lá de fora. Isso sem dúvida, foi péssimo
para a música brasileira, que viveu épocas bem mais
profícuas com diretores de gravadora do calibre de Aloysio
de Oliveira, Ismael Correa, Milton Miranda e outros.
DJ – Como, nos EUA, várias correntes
musicais conseguem coexistir no mercado, sem o rótulo de
"ultrapassados"?
PA – Acredito que a situação
por lá é meio parecida com a nossa. Há, no
entanto, algumas diferenças. Em primeiro lugar, o público
americano é infinitamente mais respeitoso com seus artistas.
Esse negócio de "já era" não existe
por lá. Além disso, o mercado é muitíssimo
maior que o nosso, o que vale dizer que há espaço
para todos os gêneros. O famoso "jabá" (payola)
não só existe lá também, como foi criação
deles (só imitamos o que não presta), mas tem sido
combatido e punido seguidamente o que está longe de acontecer
aqui. Quanto a essa questão de estar "ultrapassado",
acho que isso é algo bem brasileiro. Nos EUA, um grande músico
especializado em ragtime, por exemplo, é tão respeitado
quanto o mais progressivo dos artistas. Estou convencido de que,
em música, a exemplo de outras áreas, só se
pode forjar o futuro com um amplo conhecimento do passado.
Veja o que está acontecendo agora mesmo com o jazz. Depois
da fase áurea do be bop, quando o jazz tinha grandes platéias,
e com o advento do rock and roll, o jazz começou a perder
público. No afã de recuperar esse público,
o jazz tentou fusões com os gêneros mais populares
e essa tentativa foi frustrada, a meu ver, pois acabou por diluir
o gênero.
Evidentemente, apareceram coisas interessantes como o Blood Swet
e Tears, o Chicago e, mesmo, o Wether Report, nessa fusão
jazz-rock. Outros músicos de jazz, oriundos do be bop partiram
para um jazz mais cerebral, mais fechado, o que contribui para diminuir
ainda mais o público.
Recentemente, o grande músico Wynton Marsalis iniciou um
movimento de volta a New Orleans, a terra de Louis Armstrong, tentando
recapturar a alegria perdida do jazz. E esse movimento provocou
o surgimento dos chamados "young lions", músicos
jovens, na faixa dos vinte e poucos anos, com um poder de comunicação
de Armstrong com a vantagem de possuírem uma técnica
refinadíssima e uma informação muito maior.
Alguns desses nomes, como Nicholas Payton, os Marsalis, Mark Whitfield,
Roy Hargrove, Chiristian MacBride, Joshua Redman e muitos outros
estão devolvendo ao jazz a espontaneidade, a musicalidade
e, conseqüentemente, as platéias perdidas.
E eu pergunto: Louis Amstrong está ultrapassado? Claro
que não. Ninguém toca como ele. Aliás segundo
Wynton Marsalis, seu grande admirador "Louis Armstrong era
perfeito; em toda sua carreira, errou apenas uma nota".
DJ – Você acha viável o projeto
de uma "Casa do Samba" a exemplo de várias de preservação
do jazz que existem lá?
PA – Claro. Precisamos acabar com essa falta
de memória. Se tivermos um local onde pudermos preservar
o trabalho de nossos grandes criadores, isso servirá de aprendizado
e estímuloàs novas gerações.
O problema é que não podemos contar nossas "otoridades".
Os responsáveis oficiais pela cultura em nosso país
(Ariano Suassuna é uma honrosa exceção) são
acadêmicos demais, são meio "franceses".
Por exemplo: a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro
distribui os teatros da cidade para profissionais da área
de teatro e balé. Pra música popular nada. Ora, o
maior produto cultural dessa cidade é a música popular.
Que me perdoem os profissionais de teatro e balé, mas não
conheço nessa área nenhuma linguagem carioca.
Mas é inegável que existe uma linguagem carioca
de música popular nos sambas, choros, na bossa nova, etc.
Sem contar os dividendos turísticos que se poderia auferir
com o estímulo e a exposição da música
produzida nesta cidade.
DJ – Como você explica o fato de músicos
americanos veteranos como B.B.King, John Lee Hooker, etc, estarem
milionários e alguns luminares brasileiros do mesmo quilate
estarem morrendo na miséria?
PA – Acho que tudo que falamos até
aqui explica um pouco disso. Outra diferença é a estrutura
profissional do artista nos Estados Unidos. Aqui, o Artista é
explorado pela casa noturna onde se apresenta, pela gravadora, pela
editora e por aí vai. Até ele morrer. Aí sim,
fazem uma festa linda, discursos, discos póstumos. O que
existe aqui é, sobretudo uma tremenda falta de respeito.
A rádio JB FM, por exemplo, fazia chamadas lindas sobre
Pixinguinha, no ano de seu centenário. Mas tocar Pixinguinha
que é bom, não tocava.
A coisa vai melhorar no dia em que as pessoas que vivem da música
no Brasil gostarem mais de música. Você fala em "brasileiros
do mesmo quilate". Devo dizer que acho o Jobim muito melhor
que os maiores compositores americanos e acho a música brasileira
muito melhor que a deles. Aliás, penso que eles também
acham. Sem falar nos letristas, pois aíi é covardia.
Eles não têm por lá um Chico, Gil, Aldir Blanc,
Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, Caetano, Noel Rosa, mas
botam a maior banca.
Conheci um cara lá, chamado Rod Temperton (autor da música
"Thriller"), que ganhou tanta grana que teve que se radicar
na Alemanha para fugir do fisco americano. Por que? Provavelmente,
porque o direito autoral dele é mais bem fiscalizado e pago.
Um compositor norte-americano que tiver uma música como,
por exemplo, "O Bêbado e o Equilibrista" pode se
dar o luxo de ficar em casa coçando o saco e contando a grana.
Aqui, duvido que o João Bosco e o Aldir Blanc possam parar
um minuto de trabalhar.
DJ – A saideira...
PA – Penso que o Rio precisa um pouco mais
de bairrismo. Um bairrismo salutar, digo. Não é preciso
barrar nada, mas acho que devemos valorizar o produto da terra,
como os outros fazem. Essa nossa vocação cosmopolita,
talvez herança da época em que fomos capital da república,
às vezes atrapalha.
Viramos um centro exclusivamente receptor de coisas produzidas
em outros Estados, em detrimento da cultura carioca.
Não estou aqui preconizando nenhum fechamento mas, ao contrário,
a abertura do leque, de uma forma que a música carioca seja
contemplada. Afinal, Jobim, Pixinguinha, Noel Rosa, Chico Buarque,
Aldir Blanc, Cartola, Jacob do Bandolim, Sinhô e muitos outros
são cariocas.
Ou será que esquecemos?
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