MAURÍCIO TAPAJÓS (1943 – 1995)

Há quase oito anos, no dia 21 de abril de 1995, a música do povo brasileiro e a cultura deste sofrido país perdiam um grande homem. Depois de alguns anos de sofrimento, mas nunca deixando de sorrir, criar, lutar e liderar, partia nosso inesquecível Maurício Tapajós, presidente de nossa entidade e comandante de um segmento da classe artística nacional.

Na oportunidade, alguns companheiros assim se manifestavam:

- “ A mais vil das manobras dos sórdidos que se opunham à nossa luta pela moralização do sistema do direito autoral passava pelo jogo sujo das insinuações rasteiras (....) Maurício também não escapou de algumas aleivosias.

Entretanto, seu atestado de pobreza, que contrasta com a riqueza de seu coração e de seus ideais, é a afirmação de sua integridade pessoal, do quanto saiu com as mãos limpas numa guerra que costuma encher de vis 30 dinheiros as mãos de algumas ervas daninhas que brotam em nosso campo de batalha. Ao contrário de tantos que se enriqueceram à sombra de “ideais”, Maurício morreu pobre e endividado, mas cheio de sonhos que eles nunca tiveram a grandeza de sonhar”
Herminio Bello de Carvalho

- “A data de sua morte é exemplar: como no velho samba, morreu a 21 de abril. Foi traído, mas não traiu jamais.”
Aldir Blanc

- “ Quero me recordar dele assim:
rindo debochadamente dos adversários vendidos, dos farsantes, dos fariseus. Pra ele só posso dizer que vou fazer o que ele mais gostava: um samba que o imortalize na boca do povo.”
Paulo César Pinheiro

“Entrevistamos” Maurício. E isto através de opiniões que ele nos deixou escritas. Contundentes sempre. Como estas.

Dj – Isso é marxista demais. E o socialismo já acabou. A globalização do capital hoje é um fato.

MT – E aí é que está o problema. No Brasil todas as gravadoras são são multinacionais. Tanto que nem se consegue mais saber de que países são. No Brasil, a Ariola foi vendida para a Polygram por 1 dólar. A Ariola é alemã e a Polygram holandesa. E lá fora a Ariola comprou a Polygram, ou melhor, a Alemanha comprou a Holanda...A Ariola hoje se chama BMG – Ariola. Que BMG é esse? A gente não sabe o que a Warner é direito, se a Sony Music veio do Japão.... Mas o que elas têm lá entre elas, que compraram a CBS? Quem é essa? Isso é um caldeirão danado. Quem está aqui é somente um testa-de-ferro dessas multinacionais e recebe uma ordem pra vender, por exemplo, três milhões de Michael Jackson. Dá o azar de vender três milhões de Leandro e Leonardo, por exemplo, qual é a conta que vai prestar lá? Ele leva multa se disser que vendeu três milhões de Leandro e Leonardo. Vai prestar as contas de três milhões de Michael Jackson porque senão vai perder o automóvel, a casa com piscina, enfim, todas as mordomias que tem, além daqueles dez, quinze mil dólares...

DJ – E até mais.

MT – É engraçado que eles têm um representante de direitos estrangeiros aqui no Brasil para dizer que gravadora tem direitos “autorais”, e recebemos uma carta da França estranhando isso. Quer dizer, lá na França gravadoras não têm direito autoral. São as mesmas gravadoras multinacionais. No Brasil, do direito dos intérpretes, Roberto Carlos, Milton Nascimento, enfim, de todos os intérpretes, a metade vai para a gravadora. O que um intérprete ganha, a gravadora ganha a mesma coisa como direito de intérprete (só se a gravadora estivesse cantando junto...) além do que arrECADa na venda do disco.

DJ – Mas eles fabricam o disco, não têm que ganhar?

MT – Os direitos industriais e comerciais nós não discutimos. Eles têm os direitos deles. Aqui, ganham o mesmo que ganha o intérprete porque foram eles que fizeram a lei. Na Argentina eles ganham um terço do direito. Porque lá eles dividem um terço para a gravadora, um terço para o intérprete e um terço para o músico executante. A mesma gravadora, aqui ganha a metade e o músico executante e o intérprete ganham a outra metade.

DJ – quer dizer que os franceses não recebem a pessoa jurídica como titular de direitos autorais?

MT – Nós recebemos uma carta da França estranhando que a AMAR recebeu as nossas gravadoras independentes dentro da associação, por que lá na frança gravadoras não têm direito autoral, mas dizem que tem editor. Nós respondemos pra França o seguinte: gravadora é um editor fonográfico. A editora, inclusive, nem funciona como editora gráfica mais. Ela é uma coisa desnecessária hoje, porque a música está editada fonograficamente, ou videoaudiograficamente...

DJ – Mas as editoras sempre existiram.

MT - As editoras musicais nasceram no tempo em que não havia o disco e a música popular era editada graficamente para piano e canto e assim ela ser divulgada. Atualmente, as editoras não editam mais a melodia, harmonia e letra . Elas só são editadas fonograficamente, em discos e fita, pois se elas são sucesso, todo mundo conhece e toca de ouvido. Então, o editor hoje em dia é um mero e desnecessário intermediário que existe entre o autor e os direitos autorais.


PESADELO
Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro

Quando um muro separa
Uma ponte une
Se a vingança encara
O remorso pune
Você vem me agarra
Alguém vem me solta
Você vai na marra e ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte
Olha o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós...
Olha aí
Você corta um verso e eu escrevo outro
Você me prende vivo e eu escapo morto
E repente...olha eu de novo
Pertubando a paz exigindo o troco
Vamos por aí eu e o meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós....
Olha aí
O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade Guardiã
O braço do Cristo – Horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí


DJ – Mas as editoras fazem adiantamentos de dinheiro. E tem hora que esse dinheiro vem tirar o compositor de um sufoco...

MT- Elas dão adiantamentos para os autores das músicas que elas acham que vão fazer sucesso. Mas esses adiantamentos quase nunca são cobertos, pois são em TRD, ORTN, BTN, dolár, sei lá. É igual a prestação do BNH: você está sempre devendo.

DJ- Então você acha que não se deve editar música?

MT- Não. A editora só serve pra cobrar os direitos no guichê da gravadora, o que o próprio autor pode fazer por telefone, trimestralmente. Quando a obra do autor começa a ficar grande a ponto de ele não poder controlar, devido ao grande número de gravações, ele pode abrir sua própria editora ou se juntar a outros autores para isso. Aí, ele tem a vantagem de ter sua obra sob seu controle.

DJ - Mas aí o cara não grava nunca e não “faz sucesso”. As editoras são das gravadoras e vice-versa...

MT- Se tiver que editar, assine “contrato de edição e mandato” com prazo fixo, cinco anos por exemplo. O negócio é não assinar contrato de “cessão de direitos”.

DJ – É um beco sem saída. Se você edita, o bicho pega; se não edita, o bicho pega; se não editar, o bicho come.

MT – De fato, as editoras das gravadoras multinacionais é que decidem quais as músicas do disco devem ser trabalhadas e em que escala e prioridade. Elas empurram uma ou outra música em abertura ou trilha de novela. Mas elas só têm esse poder porque o autor assinou um contratinho cedendo seus direitos pra ela, que passa a ser dona da música. Se ninguém editasse, elas não tinham esse poder.

DJ – Jabá?

MT – Todo mundo sabe que as gravadoras pagam para as rádios tocarem as músicas. Só que depois elas querem receber esse dinheiro de volta. Por isso, elas pagam pra tocar, porque recebem esse dinheiro de volta. Aí, se eles fossem cobrar isso sozinhos não ia ter rádio ou televisão querendo pagar nada pra eles de direitos. Além de todo mundo entender que eles não tem direito nenhum de cobrar, eles ainda estão pagando para tocar as músicas! Como é que eles querem receber dinheiro pela execução dessas músicas?

DJ – Mas e as gravadoras brasileiras?

MT – Não existem gravadoras brasileiras. Todas elas são multinacionais. A última foi vendida. A Continental foi vendida para uma multinacional, que é a Warner. Eles traçam os rumos da canção brasileira. A música, na minha opinião, empobreceu enormemente da última década para cá. Por que? Não porque não existam mais compositores novos fazendo coisa boa. Existem muitos. Só que não conseguem chegar lá porque as normas vêm de fora. São ditadas de fora. “este ano o que vai acontecer é isto aqui” . Eles é que mandam. Não interessa você mostrar "Chega de Saudade". Não interessa. Não é essa música que vai “acontecer “ este ano. Não é esse seu gênero. O ano que vem vai ser a música árabe, por exemplo, o grande hit e assim por diante. Isso foi esmagando gerações.

DJ – Ano passado o AI-5 fez trinta anos.

MT- Naquela época, a gente só era ouvido se a Censura deixasse, mas a música era de alta qualidade. Hoje, o que o povo escuta não é mole. Fora o pouco que ainda há pra ouvir na TVE e num ou outro “ especial”, quase sempre de um show gravado com um som mal equalizado, há muito pouco pra se ouvir na mídia.

DJ – E tinha música de teatro...

MT- Teatro era coisa muito séria e a gente fazia música pra valer. Zumbi, Tiradentes, depois Roda Viva. Eu mesmo fiz Macambira e João Amor. Me lembro daquelas assembléias intermináveis do “pessoal do teatro” no Opinião ou noutros lugares. A gente ficava no maior cansaço...

DJ – Mas a repressão era braba.

MT- A gente não podia se reunir, conversar no bar, saber da vida dos amigos, pra não ter o que contar quando fosse preso, nem cantar o que estava com vontade de dizer. Mas a gente ia cantando na sutileza, às vezes feito os tanques que vinham de Bonsucesso ao centro em duas, três horas.

DJ - Devagar e sempre.

MT – Alguns ainda continuam resistindo à ditadura do consumo; ao capitalismo selvagem; ao desrespeito aos nossos direitos e às leis que “eles” próprios inventaram; resistindo ao desrespeito à nossa Cultura. E nós vamos continuar, levando na sacanagem, tomando umas e outras (os que ainda conseguem), cantando, fazendo Música Brasileira, “tudo fazendo para que possamos obter mais uma vitória para nossa cores”...

DJ – Valeu, Presidente!

N.R – Maurício Tapajós foi postumamente eleito Presidente de honra da AMAR-SOMBRÁS.

 

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