Em maio, a repórter Lena Frias, mais uma vez, iluminava as páginas do Caderno B do Jornal do Brasil com uma daquelas suas matérias antológicas. Desta vez, a grande jornalista levava aos leitores do respeitável JB uma grande reportagem sobre o Centro Popular de Cultura da UMES. E, no miolo da matéria, a memorável entrevista, abaixo transcrita, com nosso Marcus Vinícius, presidente da AMAR-SOMBRÁS e diretor musical do já consagrado selo CPC.

MARCUS VINÍCIUS DIZ NÃO À MEDIOCRIDADE

Marcus Vinícius, diretor do selo CPC-UMES, é um músico respeitado e que se pode considerar cult. Foi diretor artístico da gravadora Marcus Pereira, pioneira no registro dos sons e vozes brasileiros na década de 70, um trabalho de extraordinário valor artístico e documental. Marcus Vinícius tem , pelo menos, dois LPs que se tornaram clássicos, Dédalus e Trem Dos Condenados. É dramaturgo, compositor, autor de trilhas sonoras - por exemplo, do premiado A Hora Da Estrela e de O Evangelho Segundo Teotônio - , além de maestro e arranjador.

LF - O que faz a diferença no selo CPC-UMES?

MV - Trabalhar com o que vem sendo rejeitado pela grande indústria fonográfica como fora de moda, sem apelo comercial ou sem "linguagem moderna". Dizer não à onda de mediocridade e lutar contra o aviltamento da música brasileira. Insistir na qualidade e identidade da nossa música, porque nessa matéria o Primeiro Mundo somos nós. Há muita gente tentando criar confusão entre o que é permanente nas nossas práticas de cultura e arte popular e o que é velharia e coisa superada. Isso me irrita. Defender a cultura brasileira não exclui ser moderno e antenado. Infelizmente, porém, temos uma indústria que prefere apostar no circunstancial, na jogada, na onda, a apostar na qualidade.

LF - Um selo como o CPC-UMES tem mercado?

MV - É claro. O Brasil é o sexto mercado de disco do mundo. Não é possível partir do princípio de que esse mercado seja formado só por consumidores de subprodutos, por pessoas ligadas apenas no pagode mauricinho ou nesse sertanejo que eu chamo de texano de segunda, inventado por gente que deixou de ser brasileira de primeira pra ser americana de segunda. CPC-UMES é selo popular de cultura mesmo. Pertence à União Metropolitana de Estudantes Secundaristas de São Paulo.

LF - O nome do selo lembra o antigo Centro Popular de Cultura da UNE.

MV - Ninguém está aqui cultivando saudosismo dos anos 60 ou 70, mas a homenagem a um momento importante da cultura brasileira, a um trabalho de resistência realizado há quase 40 anos, é merecida. Quando nós, profissionais da cultura, fomos chamados pelos estudantes da UMES, ficou claro que não se pretendia reeditar ou restaurar os antigos CPCs. O momento é outro, a proposta é outra e nossa linguagem é a de agora.

LF - Há semelhanças no viés ideológico.

MV - Ninguém é ingênuo de achar que a discussão do nacional e do popular se resolveu ou se esgotou. A questão fundamental não deixou, portanto, de existir. Lidamos com o popular com uma visão contemporânea mas com a consciência dos valores de identidade.

LF - É possível conciliar vanguarda e modernidade com popular e nacional?

MV - Podemos e devemos ser modernos e nacionais. Vanguarda e brasileiros. Eu sempre busquei uma linguagem de vanguarda na minha música, dentro da brasilidade, de um compromisso com o país. Buscar o novo não significa abdicar de posturas políticas e ideológicas. Nós da CPC-UMES somos contemporâneos e nacionais. Por que o conceito de modernidade tem que embutir uma postura antinacional?

LF - A música não-brasileira ainda domina a programação de rádio e TV.

MV - A gente tem que respeitar a boa música internacional, que é também nutriente e traz informações importantes. O que não podemos nem devemos aceitar é essa dominação de mercado com produtos de baixa categoria, que não chegam aqui por mérito cultural, mas por uma estratégia de ocupação.

LF - Neste momento, grande parte da nossa produção musical de sucesso não é sinônimo de qualidade nem traduz a diversidade musical brasileira.

MV - Aqueles que pensam a cultura no Brasil têm que bater mais duro nos executivos do disco. Precisamos ser mais críticos. Esses executivos passam ao largo da riqueza e diversidade que fazem a admiração do mundo inteiro para criar produtos artificiais, planejados em laboratório, visando a uma demanda imediata que eles mesmos criam, através da utilização dos recursos da mídia.

LF - Esses produtos vendem muito e sustentam essa estrutura toda.

MV - São feitos para isso. É um jogo em que a gente, se não tiver cuidado, já entra como perdedor, como voto vencido. Tudo está ligado: as leis de incentivo à cultura, que privilegiam quem não precisa delas, a globalização - apresentada como estrada de mão única na qual alguém nos diz o que devemos ou não consumir, o que deve ou não ser valorizado.

LF - Há quem se deixe seduzir.

MV - A sedução é proporcional à ignorância. Quem conhece um pouquinho da nossa arte e da nossa música sabe que não podemos entrar em desvantagem nesse campo.

LF - A globalização parece um processo irreversível.

MV - Eu vou acreditar na globalização quando houver diversas vias de mão dupla. Quando a capital desse mundo globalizado puder ser também Caruaru, no sentido do intercâmbio de valores da arte e da cultura.

LF - Quem está definindo a cultura no Brasil?

MV - São os departamentos de marketing das grandes empresas. E também algumas madames desocupadas que, por falta do que fazer, ficam inventando projetos, captam incentivos públicos e os aplicam em programas privados para a contemplação do próprio umbigo. As leis de incentivo à cultura se transformaram em leis de incentivo ao marketing. E agora as empresas de televisão também podem se valer da lei de incentivo ao audiovisual nas suas produções. Ou seja, empresas que já são riquíssimas, subvencionadas de mil e uma outras maneiras, ainda vão se beneficiar de um tipo de incentivo que deveria caber ao pequeno produtor, ao produtor independente, ao produtor de vanguarda, a projetos de preservação e memória.

LF - E o selo CPC-UMES?

MV - Nós bancamos o nosso projeto. Só um ou outro disco - como a História do samba paulista - teve incentivo. Mas acho que a lei deveria existir exatamente para projetos como o nosso e muitos outros que estão trabalhando, por exemplo, na linguagem da transgressão e da vanguarda. Por que usar dinheiro público para promover o grande espetáculo do rock ou o Free Jazz? Por que não tem o Free Choro ou Free Samba, o Free Frevo ou Free Baião? Usar dinheiro da cultura brasileira para divulgar música internacional é indefensável.

LF - Uma briga pesada.

MV - Pois é, a gente começa a perceber as coisas e a dizer não. É o que esses meninos da UMES estão fazendo. Eu sou um trabalhador da cultura, mas tenho a impressão de que as outras áreas sofrem o mesmo tipo de opressão, invasão e diminuição perante valores supostamente modernos, que na verdade são valores da exploração atrelados às técnicas e tecnologias do grande capital.

LF - Não interessaria à indústria fonográfica explorar o filão de qualidade da música brasileira?

MV - Somos o Primeiro Mundo da música, mas os executivos do disco são subdesenvolvidos, gente de Quarto Mundo. São "traficantes", estão botando droga no mercado. Uma incoerência, essa traficância num país com a qualidade musical do Brasil. No eixo Rio-São Paulo nós ainda nos deixamos seduzir pelo efêmero e pelo fulgor da mídia, mas fora desse eixo o Brasil de verdade está fervendo em criatividade.

LF - A indústria fonográfica prefere apostar no que dá retorno certo.

MV - A música brasileira sempre foi boa, apostar nela é que é apostar no certo. Incerto e sem substância é investir em coisas como o texano de segunda e o axé-bundinha. Prefiro a qualidade e a permanência de criadores como Ari Barroso, Pixinguinha, Cartola, Capiba, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gil, Tom Jobim.

LF - CPC-UMES é, portanto, um selo de resistência.

MV - Não quero mais participar da resistência, quero partir para a ofensiva. Atacar com as melhores armas, que são a nossa verdade, a dignidade, a qualidade da nossa música. É o que estamos fazendo.

 

Leia também

Paulo César Pinheiro

Paulinho Albuquerque

Maurício Tapajós (1943 - 1995)

Marcus Vinícius diz não à mediocridade

Katrina Geenen
20 anos de Música Brasileira no berço do Jazz