KATRINA GREENEN - 20 anos de música brasileira no berço do Jazz

"Uma grringa grrande". Assim se auto-define, num tremendo esforço para falar nossa língua e assimilar nosso jeito, a radialista norte-americana Katrina Geenen. Desde 1980, ela escreve, produz e apresenta, sem ganhar um cent, na rádio WWOZ de New Orleans, o berço do jazz, o programa Tudo Bem, especializado na mais autêntica música do povo brasileiro. Um tempinho atrás, Ms Geenen chegou ao Brasil, disposta a conhecer e viver Vila Isabel. E foi durante sua alegre estada, que se prolongou bastante, com um pulinho de uma semana em Salvador, que nós a ouvimos. Grande Katrina! Que os deuses da cultura brasileira te abençoem!

DJ – Katrina, como é que se deu esse teu envolvimento com a música brasileira?

KG – A primeira vez que ouvi música brasileira eu estava no meu primeiro ano da Universidade do Texas. Eu ouvi Sérgio Mendes e Brasil 66 cantando Mas, que nada no rádio. Gostei muito e corri pra comprar o disco. No mesmo ano, 1966, vi o filme Orfeu Negro. Eu não podia acreditar que houvesse coisa tão maravilhosa! Então, comecei a prestar atenção à música brasileira. Encontrei alguns discos de bossa-nova, de Stan Getz, Astrud Gilberto, Tom Jobim e outros. Mas estávamos nos anos 60 e eu andava meio baratinada pelo movimento hippie e atraída pelo som psicodélico daqueles tempos, e pelo blues, que conduzia ao jazz. Em 1973 me mudei para New Orleans, onde fui de novo apresentada à música brasileira. Muitos dos meus amigos que gostavam de jazz também tinham música brasileira em suas discotecas. E, naquela altura, comecei a colecionar seriamente discos de música brasileira. Tudo o que eu pudesse encontrar.

DJ – Quando é que começou o programa?

KG – No segundo semestre de 1980, eu trabalhava como garçonete em um bar com música em New Orleans chamado Tipitina’s. Uma noite um grande amigo, Joe Smith, me apresentou aos fundadores de uma nova rádio, a WWOZ. Eram dois irmãos, Jerry e Walter Brock. Joe Smith contou para eles que eu gostava muito de música brasileira e tinha um monte de discos e perguntou se eles não queriam me convidar para fazer um programa na WWOZ. Aí, eles me convidaram.

DJ – Já são mais de 20 anos. O Tudo Bem já tem uma história...

KG – Como disse antes, eu comecei a fazer o programa no fim de 1980. Não havia estúdio naquela época. Os fundadores da WWOZ, Jerry e Walter Brock, gravavam os programas em casa. Só havia uma concessão e uma antena. Todo o equipamento ficava na sala da casa dos irmãos Brock. E eu gravei o primeiro programa lá. Em 1981 ou 82, não me lembro bem, a WWOZ mudou-se para um estúdio em cima do Tipitina’s. Nós ainda gravávamos antes os programas porque a música que vinha do primeiro andar era muito alta. Era impossível por no ar programas ao vivo.

DJ – E sem ganhar nada...

KG – Todos nós da WWOZ somos voluntários. Nós produzimos nossos programas com liberdade mas sem nenhuma remuneração, porque gostamos de música. A rádio também não é uma estação comercial. E isso significa que lá você pode tocar mais música do que em outro tipo de emissora. E isso porque nós não temos anúncios comerciais. Nós obtivemos recursos através de doações de ouvintes, da jazz & Heritage Foundation, que anualmente detém a concessão da rádio, e de subvenções da empresas públicas de radiodifusão.

DJ – O estúdio ainda é no mesmo local?

KG – Não! A rádio agora funciona em um antigo edifício no Parque Armstrong, cujo nome é uma homenagem ao grande trompetista de New Orleans, Louis Armstrong*. Nossos estúdios são bem próximos da histórica Congo Square**. Todos os nossos programas, inclusive o Tudo Bem, hoje são feitos ao vivo. Temos equipamento de última geração e estamos conectados à Internet no endereço www.wwoz.org . Fazemos muitas transmissões ao vivo para longas distâncias; de música local diretamente das casas noturnas e também transmitimos entrevistas e música ao vivo do festival Jazz & Heritage todo ano. A WWOZ está crescendo muito rapidamente.

DJ – E em termos de audiência?

KG – A audiência do Tudo Bem também vem aumentando a cada dia. O povo de New Orleans gosta da música brasileira. Eles gostam principalmente, quando faço especiais, entrevistando músicos brasileiros. Recebo muitos telefonemas de ouvintes que gostam de ouvir músicos falando de suas músicas. Esta é uma outra proposta do Tudo Bem: mostrar de onde a música vem. Quer dizer, não é só entretenimento, mas informação através da diversão. Os ouvintes constantemente telefonam durante o programa para saber o nome da canção, como se pronuncia o nome do artista e onde eles podem comprar o disco. Eu também recebo, dos ouvintes, muitos pedidos para tocar suas canções ou seus artistas brasileiros preferidos. E os ouvintes de New Orleans têm gostos muito diversificados, mesmo em termos de música brasileira. Às vezes, o telefone toca tantas vezes durante a execução de um número musical que eu mal tenho tempo de anunciar o próximo!

DJ – Dá para ouvir Tudo Bem aqui no Brasil?

KG – A WWOZ pode ser ouvida via Internet, 24 horas por dia, os 365 dias do ano. Nossa audiência é o mundo! Eu recebo telefonemas e e-mail de várias Cidades dos EUA, da Escócia, da Hungria, dos Emirados Árabes e até do Brasil! É impressionante!

DJ – A língua não é um problema?

KG – Hoje menos do que antes. A música brasileira é muito rica em melodia, harmonia e ritmo e os ouvintes gostam é do "som". E, aí, eles entendem a mensagem mesmo sem saber o significado das palavras. Entretanto, há muitos ouvintes que já têm familiaridade com a música e entendem o sentido geral das canções. E mesmo, os lançamentos americanos de música brasileira normalmente, incluem traduções das letras. Os ouvintes que falam francês, espanhol ou italiano, em geral entendem um pouco de português. Eu toco também muita música instrumental. E, no caso das canções, costumo incluir no texto dos programas informações sobre o que a letra está dizendo. Mas, na verdade, ninguém precisa saber português para gostar de música brasileira.

DJ – Como é que você consegue material para o programa?

KG – De tudo quanto é jeito. Encontro outros fãs de música brasileira e trocamos gravações... Hoje já existem várias lojas de discos em New Orleans que vendem música brasileira, então posso comprar lá. E agora eu também já conheço muitos músicos brasileiros que me mandam seus CDs. Eu só vim ao Brasil cinco vezes mas, a cada vez que venho, compro tudo o que posso. Eu "caço" lojas de discos e, aí, volto pra New Orleans com mais musica do que posso carregar. Existem também alguns selos, poucos mas existem, de música brasileira nos EUA e o Tudo Bem está na lista deles. Assim, eles me mandam os novos lançamentos. E eu tenho a felicidade de conhecer Paulo Albuquerque, Nei Lopes, Zé Nogueira e Carlos Callado, que têm me passado muita informação sobre música brasileira e me mandado muitos CDs. Nesta minha vinda ao Rio eu tive a sorte de conhecer Rita Peixoto, maravilhosa cantora do grupo Arranco, e seu marido e produtor Carlos Fuchs. Através deles, eu conheci músicos maravilhosos e estou levando uma pilha enorme de CDs, e importantes entrevistas para o Tudo Bem. Às vezes, músicos brasileiros em New Orleans ouvem falar do programa e vão até a rádio, como foi o caso do Marcos Souza, do Conversa de Cordas e do Duo 2, que me levou discos seus e de seus amigos. Dessa forma, eu já tenho uma bela discoteca. Mas ainda vou conseguir muito mais!

DJ – Você tem preferência por algum tipo de música brasileira?

KG – Eu gosto de tudo! Todos os estilos e gêneros e de todas as épocas. Gosto das gravações mais antigas, históricas e gosto também dos novos, dos modernos lançamentos. Naturalmente, eu gosto de samba e também da música dos terreiros de candomblé. Nessa viagem, eu encontrei muitos músicos e produtores que estão lançando discos independentes. E essa é uma mina de ouro para se achar músicas maravilhosas! O trabalho independente que está sendo feito é muito importante.

DJ – Qual a sua opinião sobre músicos brasileiros que buscam reconhecimento internacional cantando em outra língua e renegando suas raízes musicais?

KG – Bem, isso é uma tragédia! A razão... Penso eu! ...pela qual a música brasileira está se tornando mais conhecida popularmente no mundo todo, hoje, é a sua essência brasileira, é a sua alma. Renegar essa alma, as raízes em que ela se sustenta, é o mesmo que vender a alma ao diabo. Naturalmente, muitos dos grandes artistas brasileiros buscam esse tipo de reconhecimento e não estão conseguindo. Mas mudar de estilo ou abandonar suas raízes em troca de sucesso comercial é pagar um preço muito alto. Eu não sei qual é a solução para esse problema mas a WWOZ é muito importante nesse sentido porque nós buscamos a música verdadeira, e não aquela de brilho artificial, puramente comercial.

DJ – Como é que você vê o fator de certos músicos brasileiros, principalmente do samba tradicional, serem mais reconhecidos no Japão do que no Brasil?

KG – É uma outra tragédia. É muito triste para mim saber que o Brasil não acolhe esses artistas como os heróis que eles são. É inacreditável!

Os leitores interessados em mandar material para o Tudo Bem, o endereço é: Katrina Geenen, WWOZ 90.7 FM Community Radio – P.O.Box 51840 New Orleans, Louisiana 70.151

* ARMSTRONG, Louis [Daniel] (1900-1971) – Trumpetista e compositor americano nascido em New Orleans, LA. Uma das maiores figuras da música mundial em todos os tempos, foi o primeiro grande solista do jazz. Embaixador da cultura musical afro-americana, contribuiu para tornar universal um gênero de música antes meramente local e quase folclórico.

** CONGO SQUARE – Antigo nome da Beauregard Square, praça em New Orleans, LA, o maior centro, irradiador da cultura afro-americana no sul dos EUA, no Século XIX. Lá, os negros, principalmente os congos, reuniam-se para conviver socialmente, tocando seus instrumentos, executando suas danças e realizando os rituais de sua tradição. Assim, foi lá que se tornaram conhecidas danças como a bamboula, a calinda e o counjaille, além de alguns ritos não-secretos do vodu. (FONTE: Nei Lopes, Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana – em finalização).

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